quarta-feira, 30 de junho de 2010

Qual o real efeito da Jabulani?*


Com 56 dos 64 jogos disputados, já se pode tentar identificar a real interferência que a polêmica bola Jabulani teve na Copa do Mundo 2010. Na comparação de dados do Campeonato Brasileiro com Mundial da África do Sul, é possível notar principalmente a grande diminuição de gols marcados em cobrança de falta.

Com a Jabulani, fabricada pela Adidas, foram quatro gols de falta marcados em um total de 123, o que representa um índice de 3,25% do total. O número é completamente diferente em relação ao Campeonato Brasileiro de 2010.

Na Série A, com a bola Total 90 Pitch, fabricada pela Nike, foram marcados 16 gols de falta em um total de 169. Isso representa praticamente o triplo em relação à Copa do Mundo: 9,47%.
Se feita a mesma comparação em um total de gols marcados de fora da área também com bola rolando, a diferença passa a ser quase nula. No Brasileiro, 27 em um total de 169, o que significa 16,26%. Na Copa do Mundo, 20 de 123, índice de 15,90%.

Na Copa 2010, três gols quatro gols de falta marcados foram por asiáticos: Honda e Endo, do Japão, fizeram contra a Dinamarca, e Park Chu-Young, da Coreia do Sul, marcou diante da Nigéria. Kalu Uche, nigeriano, fez contra a Grécia.

* Publicado originalmente no Terra

terça-feira, 29 de junho de 2010

Na terça-feira, os dois melhores times venceram: bom para a Copa


Pense pelo futebol: não seria justo a Espanha não vencer. Se não foi brilhante, o time de Vicente del Bosque foi quase sempre mais seguro que Portugal, fruto de uma identidade de jogo que nunca muda. Isso só aconteceu pelo trabalho que é feito nos clubes e nas seleções de base espanholas, por uma união de conceitos que privilegiam a parte técnica e procuram sempre encaixar a maior quantidade de talentos juntos possíveis. Quem realmente gosta do futebol (e claro, não torce pelos portugueses) não pode dar as costas ao time de Xavi e Iniesta.

Para um duelo de mata-mata contra um time altamente técnico, estava escrito que Carlos Queiroz não ia alterar a identidade que deu para sua equipe nos últimos dois anos. O Portugal competitivo de Felipão se transformou em um time excessivamente defensivo, que não marcou (e também não sofreu) gols em três dos quatro jogos do Mundial. Cristiano Ronaldo deve ouvir algumas críticas, mas está nítido que o sistema de jogo lhe prejudica e muito. Está quase sempre só e, naturalmente, cercado por muitos marcadores. Se o time tivesse presença ofensiva, ele teria muito mais espaço.

Del Bosque não mudou suas convicções até aqui e, provavelmente, se manterá da mesma forma para o(s) próximo(s) jogo(s). Sempre há um espaço grande entre Fernando Torres e o meio-campo, porque Xavi recua até a intermediária e Iniesta nunca guarda o flanco direito - prefere afunilar e abrir o corredor para Sergio Ramos. O sistema dificulta ainda mais as coisas para Torres, em quem se confia para os momentos mais agudos. Junto a David Villa, o jogador mais decisivo do Mundial até aqui, ele pode ser o que falta para a Espanha realmente se credenciar ao título.

A vitória espanhola indica mais bom futebol vivo na Copa, o que é positivo para a fase final. O objetivo de repetir a Copa de 50, e ficar pela segunda vez na história entre os quatro, é bastante possível.

ESPANHA (4-2-3-1) x PORTUGAL (4-3-3)
Melhor em campo: David Villa
Melhor de Portugal: Eduardo
O leão: Sergio Ramos
O preguiça: Fernando Torres
A imagem do jogo: Espanhóis embolados, tocando rápido de em pé, até o gol de Villa

Gerardo Martino deve ter se preocupado com o que viu do Japão diante da Dinamarca e armou Paraguai em sua partida mais defensiva dos últimos tempos. É verdade que, de certa forma, deu certo, mas uma eliminação poderia alvejar, e muito, o competente treinador argentino. Durante as Eliminatórias, os paraguaios se caracterizaram como um time dominador, salvo contra oponentes mais fortes que jogassem em casa, o que não é o caso do ótimo time japonês. Não
fosse um mata-mata (ou morre-morre, como diria o outro), Martino teria jogado mais à frente.

Para os japoneses, a Copa se encerra com um saldo bastante positivo. Vários jogadores importantes da equipe têm idade para disputar o Mundial de 2014 em bom nível e há, inclusive, gente surgindo. Caso nítido do oportunista atacante Okazaki, preterido por conta das ideias de Takeshi Okada e pelo bom futebol de Matsui, Honda e Okubo. Cabe aprimorar mais um plano B com mais atletas à frente sem que desguarneça a defesa e acompanhar mais nomes ganhando espaço no cenário de clubes europeus.

O Paraguai certamente venderá caro uma derrota para a Espanha, como sempre foi em sua história nos mata-matas recentes em Copas. Chegar entre os oito melhores do Mundial, porém, dá o tom do bom trabalho que vem sendo realizado, mesmo com os atacantes atuando abaixo do esperado. Nenhum jogador paraguaio de frente, cabe lembrar, balançou as redes até aqui. Barrios é o único que pode dizer ter feito bons jogos.

PARAGUAI (4-3-3) x JAPÃO (4-1-4-1)
Melhor em campo: Endo
Melhor do Paraguai: Paulo da Silva
O leão: Tanaka
O preguiça: Roque Santa Cruz
A imagem do jogo: Komano, desolado, após perder seu pênalti

A grande história de Jonathan Mensah


Aos 19 anos, o jovem zagueiro de Gana, campeão mundial sub-20 há um ano, chegou até a Copa desacreditado. Vinha jogando em um clube da quinta divisão espanhola, cedido pela Udinese. Jonathan Mensah, entre os mais de 700 jogadores inscritos, é quem pertence ao mais baixo escalão de times. O que, diga-se, não lhe impediu de atuar de forma exuberante quando acionado e concorrer ao prêmio de revelação entregue pela Fifa.

Para valorizar o conteúdo do Olheiros, onde está o texto, deixo o link para quem quiser ler na íntegra. Clique AQUI.

Do jeito que Dunga gosta


Mais que qualquer outra partida na Copa, a vitória sobre o Chile tem a cara do velho e competitivo time de Dunga. Como em nenhum outro confronto, os brasileiros jogaram fechadinhos, mas sem correr grandes riscos em 90 minutos, principalmente pela boa saída de bola e por uma sutil alteração tática.

Sem Felipe Melo e Elano, os substitutos Ramires e Daniel Alves atuaram mais próximos de Gilberto Silva, o que configurou um até então esquecido 4-3-1-2. Mais protegido e na sua, Gilberto Silva teve um grande jogo. Juan e Lúcio, novamente, realizaram partidas exemplares. Mesmo com o corredor aberto devido ao sistema, Maicon, assediado por Beausejour e Mark González, guardou posição. O sistema defensivo foi perfeito.

Fechado atrás, o Brasil só poderia encontrar seus gols da maneira mais convencional: nada de posse de bola, como na primeira fase. Marcou duas vezes em contra-ataque - agora, chegou a 43 dos 127 gols nos últimos quatro anos em contragolpes. Também fez o 17º em jogadas aéreas de bola parada. Maicon, com a assistência para Juan, se tornou o líder desse ranking, com 11 passes para gol na Era Dunga.

O Brasil, definitivamente, arranca para a final da Copa.

BRASIL (4-3-1-2) x CHILE (4-2-3-1)
Melhor em campo: Juan
Melhor do Chile: Alexis Sánchez
O leão: Gilberto Silva
O preguiça: Suazo
A imagem do jogo: Desespero de Bielsa no segundo gol brasileiro

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Holanda e Argentina: vencer e não jogar bem, até onde um problema?


São 23 jogos sem perder, quatro vitórias no Mundial e dois dos melhores jogadores do momento atuando em alto nível. Afinal, há motivos para essa Holanda se preocupar além do fato de agora ter o Brasil como adversário? Não parece o caso, afinal o problema dos holandeses não é tático, técnico ou físico. É uma mera questão de intensidade nas partidas, o que pode ser amenizado pelo fato de os adversários terem exigido muito pouco ou quase nada do time de Bert van Marwijk.

A Eslováquia jogou mais de uma hora sem acertar o gol de Stekelenburg, que depois respondeu bem com duas ótimas defesas. Durante praticamente todo o tempo, a Holanda tinha o passe correto, a cadência ideal e a área muito bem protegida por uma recomposição exemplar de seus jogadores. A estratégia eslovaca de recuar Hamsik para o início das jogadas não funcionou e tê-lo para o segundo ou terceiro passe foi desperdício. Melhor seria entre Stoch e Jendrisek, próximo a Vittek. O erro de Vladimir Weiss também ajudou os holandeses.

Para a preocupação brasileira, Sneijder e Robben se mostraram afinadíssimos. Depois de levarem seus clubes até a final da Liga dos Campeões, eles jogaram juntos e fizeram a festa. O primeiro acertou um lançamento maravilhoso para o gol inicial, marcado em jogada preciosa de Arjen, que teve desenvoltura e nem pareceu o jogador que vinha lesionado. A dupla mais quente do momento em um grande dia e o sonho do hexa pode ficar para 2014.

HOLANDA (4-2-3-1) x ESLOVÁQUIA (4-2-3-1)
Melhor em campo: Robben
Melhor da Eslováquia: Weiss
O leão: Kuyt
O preguiça: Van Persie
A imagem do jogo: Lançamento de 50 metros de Robben para Sneijder

Preguiçosa e desinteressada na etapa final e dominada até marcar o primeiro gol. Pode parecer má vontade, mas a Argentina ainda precisa convencer mais na Copa do Mundo. Terá pela frente a Alemanha, como em 2006. Aquele time argentino, cabe frisar, era absolutamente superior a esse, que segue sobrevivendo com base em seus talentos individuais. Nesse sentido, nem o time de quatro anos atrás, nem nenhum outro da Copa, supera a equipe de Messi.

A estratégia mexicana foi passar do 4-3-3 ao 4-4-2, com Torrado próximo de Messi, Rafa Márquez liberado para iniciar a jogada e Javier Hernández sempre penetrando entre Mascherano e os zagueiros titulares. Assim, em meia de hora de jogo, foram ao menos três ótimas ocasiões para o time de Aguirre. Como o futebol nunca é linear, bastou um erro feio de arbitragem, um cochilo imperdoável de Osorio e a vaga foi pelo ralo. De que adiantaria voltar do intervalo determinado se havia Tévez do outro lado para marcar um golaço?

Ao contrário da Holanda, o fato de não jogar bem deve preocupar os argentinos. Não dá para imaginar o time de Maradona vencendo esta Alemanha atuando a 60% ou 70% de seu potencial como fez contra o México. Será preciso muita dedicação, conjunto e feroz disciplina a todos os aspectos do jogo. Sob o risco de pôr novamente pelo ralo mais uma geração fantástica de jogadores.

ARGENTINA (4-1-3-2) x MÉXICO (4-4-2)
Melhor em campo: Tévez
Melhor do México: Javier Hernández
O leão: Maxi Rodríguez
O preguiça: Bautista
A imagem do jogo: Heinze agredindo a câmera após o segundo gol

domingo, 27 de junho de 2010

Alemanha combina jogo objetivo e plasticidade


A quantidade de passes indica que a Inglaterra quis ser protagonista do jogo: foram 357 contra 273 dos alemães. Oras, fica clara a estratégia de Capello: impedir o time de Özil de articular. Mas de que adianta tocar de pé em pé e não incomodar? Os dois times finalizaram praticamente a mesma coisa: 16 chutes ingleses contra 14 alemães.

Não dá para criticar a Alemanha por jogar nos contra-ataques, com beleza e eficiência. Se deve, sim, alvejar o English Team pela falta de profundidade, de iniciativa e de coração. Claro que fica a ressalva quanto à trapalhada da arbitragem. É possível especular o que aconteceria com um trepidante empate inglês, mas não se pode admitir uma Inglaterra tão pouco vibrante. Também nisso, a equipe de Löw foi superior.

Não dá para fechar os olhos para o que fizeram Schweinsteiger, Müller, Özil e Klose. Diante da Inglaterra, ficou evidenciada a "Nova Alemanha", mas também há traços da velha mentalidade linear e personalidade vencedora. O time que não se abate com a pressão, com adversidades e com as trocas de passes dos rivais. Recupera a bola, sai tocando e chega na área. Exatamente tudo o que a Inglaterra não teve novamente.

ALEMANHA (4-2-3-1) x INGLATERRA (4-4-2)
Melhor em campo: Thomas Müller
Melhor da Inglaterra: Lampard
O leão: Schweinsteiger
O preguiça: Rooney
A imagem do jogo: Senhores Larrionda e Espinoza, preciso responder?

A preparação física é a lição nos jogos do sábado


ESTADOS UNIDOS (4-4-2) x GANA (4-1-4-1)
Melhor em campo: Kevin-Prince Boateng
Melhor dos Estados Unidos: Dempsey
O leão: Asamoah Gyan
O preguiça: Altidore
A imagem do jogo: comemoração de ganenses com bandeira do país pós-jogo

Estados Unidos e Gana fecharam suas participações na primeira fase da Copa no mesmo dia, a última quarta-feira. Mas quando a bola rolou para a prorrogação em Rustemburgo, a sensação é de que os africanos tinham muito mais fôlego e força mental. Se justifica, afinal os estadunidenses tiveram verdadeiras epopéias em seus três primeiros jogos do Mundial e ainda um segundo
tempo heroico contra os ganenses.

Gana dominou não só pela parte física. Fez um primeiro tempo exemplar, em que novamente Estados Unidos pareceu mal escalado de início. Kevin-Prince Boateng foi um monstro, marcando como volante e atacando como meia para esquecer Annan atrás e se juntar a Kwadwo Asamoah na armação. Bradley novamente mexeu como precisava e os Ianques fizeram, pelo terceiro jogo seguido, um excepcional segundo tempo. Dempsey comandou o ataque e até ofuscou Donovan.

A prorrogação é um jogo diferente, com a tensão ainda mais evidenciada. Um erro custa a vaga. Gana não permitiu nada aos Estados Unidos, que perderam o fôlego, a posse de bola e uma vaga que parecia deles antes de o jogo começar.

URUGUAI (4-3-1-2) x COREIA DO SUL (4-2-3-1)
Melhor em campo: Luis Suárez
Melhor da Coreia do Sul: Chung Young-Park
O leão: Diego Pérez
O preguiça: Kim Jae-Sung
A imagem do jogo: Uruguaios fazendo a festa sob a chuva em Port Elizabeth

Se defender para garantir um resultado faz parte do DNA uruguaio. Poucas escolas se fecham tão bem e conseguem transformar a grande área em um território impenetrável. Prova real disso são os mais de 300 minutos sem sofrer gol na Copa, sem tantas intervenções de Muslera.

A retranca celeste depois de bom primeiro tempo foi demasiada. Durante a etapa final, a impressão era de que Cavani, Forlán e Álvaro Pereira, os homens que fazem o time respirar, não aguentavam com as próprias pernas. Park Chu-Young, Park Ji-Sung e Lee Chung-Yong comandaram uma reação que além de técnica e tática, claro, também foi física.

Oscar Tabarez demorou demasiadamente a trocar um ou dois jogadores e só o fez quando a coisa apertou. Coincidência ou não, com Lodeiro, e sem a vantagem, o Uruguai recuperou a posse de bola e comprovou ser tecnicamente melhor que a boa equipe sul-coreana. No fim das contas, nada iguala a técnica. E Luis Suárez, uma estrela em ascensão, definiu. É ótimo quando o talento se sobrepõe a outros aspectos.