sexta-feira, 4 de maio de 2007

Balaio de Peixe


Vanderlei Luxemburgo falará com a imprensa em entrevista coletiva nesta sexta-feira. Na ordem do dia, estarão em pauta as declarações de Pedro e Rodrigo Tiuí, recém-saídos da Vila Belmiro. Em entrevistas nesta quinta, os atletas o acusaram de exigir a associação a um procurador específico, o que subentende-se, significaria o famoso “por fora”.

Pelos clubes que passou, especialmente desde 2001, Vanderlei Luxemburgo sempre teve participação ativa na aquisição de jogadores. Naquele Corinthians, embrião da equipe de Parreira em 2002, Luxa contratou Leandro, Doni, Deivid, Fabrício, Fabinho e Renato, por exemplo. Na ocasião, Luxemburgo chegou a propor que tivesse comissões pela venda de atletas por ele revelados. Antônio Roque Citadini, homem forte do futebol corintiano naquele tempo, rechaçou.

O fato é que as saídas de Pedro e Rodrigo Tiuí, realmente soavam estranhas. Por ter um contrato de apenas três meses, parecia lógico que o lateral, titular durante quase toda temporada, quisesse prolongar o vínculo e quiçá, receber um aumento. Já Rodrigo Tiuí, aposta pessoal de Luxemburgo, também merecia uma valorização. Embora todos soubessem de suas limitações, é inegável que titular ganha mais, sobretudo em um vínculo mais longo, objetivo do Santos.

Também surpreende a omissão da direção santista, não só neste episódio, mas com relação a todos os burburinhos que sempre permearam a brilhante trajetória de Luxemburgo na Vila Belmiro. Mais uma vez, é o próprio treinador e seu staff (leia Luís Lombardi), que se encarregam de colocar panos quentes na história, justamente às vésperas da final diante do São Caetano. Os episódios comprovam o amadorismo dentro do Santos Futebol Clube.

Se não dá para imaginar total inocência do ponto-de-vista dos atletas, também não dá para acreditar que Tiuí saiu porque, de última hora, fez uma contra-proposta bem acima do que havia sido acordado. Tampouco é impossível acreditar na mais ainda nebulosa abordagem com relação ao lateral Pedro.

Ninguém é capaz de discutir a competência técnica que Vanderlei Luxemburgo tem em montar elencos. Foi assim com o Cruzeiro-03 e o Santos-04, além do atual plantel santista. A dificuldade está em entender por quais motivos o treinador sempre pauta seu planejamento em longas listas de dispensas iniciais e contratações em atacado. A dificuldade está em entender porque tantos jogadores do Iraty em 2005. Está em entender convocações e instantâneos negócios nos tempos de seleção brasileira, como os casos de Mozart e Evanílson.

Em entrevista com Muricy Ramalho já no final de 2006, o treinador são-paulino, de caráter reconhecidamente acima da média, disse ter convicção de que há companheiros de profissão ganhando muito com tais negócios. Na mesma série de entrevistas, falei com André Rizek, repórter da Placar e dos mais aguçados observadores em bastidor. Rizek assegurou já ter recebido uma série de denúncias sobre um técnico específico, que segundo dizem, tem ligações com empresários, procuradores e que ganha fortunas através de comissões obscuras e não-comprovadas. De quem será que falam?

Luxemburgo, mais uma vez, precisa se explicar.

quinta-feira, 3 de maio de 2007

Four-four-two

Paulo César Carpegiani e Celso Roth não dirigiam equipes brasileiras há um tempo considerável. Ao assumirem Corinthians e Vasco da Gama, respectivamente, uma coincidência: taticamente, ambos pensam em utilizar o 4-4-2 em linha, esquema consolidado no futebol inglês e com variações quase idênticas ao modelo padrão italiano e principalmente espanhol. Na Copa do Mundo 2006, foi basicamente assim que Alemanha e Itália jogaram.

Não que a idéia não possa dar certo. Longe disso. Mas exige muito treinamento, aperfeiçoamento e repetições, para vingar. Até porque os elencos, convenhamos, são limitadíssimos. No Corinthians, apenas Rosinei é teoricamente capaz de desempenhar uma função pelos lados do meio-campo. No Vasco, Roth diz querer Morais, o melhor jogador da equipe, como left-winger.
Um dos senões é que jogador brasileiro não está habituado ao modelo.

Praticamente não existem laterais marcadores em território nacional, graças a própria característica de nosso futebol. No 4-4-2 à inglesa - diferente do nosso que é na verdade um 4-2-2-2, as jogadas pelos flancos são articuladas por meias abertos. No interior dessa linha, é necessário ter dois meio-campistas combativos, com poder de finalização e técnica para articular. Um exemplo é Michael Ballack. Na defesa, não existe sobra. Existe uma linha de quatro zagueiros que raramente ultrapassam o meio-campo, bem diferente do que se vê por aqui.

Nos últimos tempos, as poucas experiências não funcionaram bem. Muricy Ramalho jogou assim contra o Boca Juniors pela final da Recopa Sul-Americana. Levou um baile com Alex Silva de lateral-direito e Richarlyson pela esquerda. E por fim, o próprio Carpegiani, após três dias de treinamento mandou a equipe corintiana assim para ser eliminada pelo Náutico em pleno Pacaembu.

Será difícil, mas vale o teste.

"Carlo e Gennaro"


Seu Carlo sempre foi um sujeito precavido. É daqueles que não saem de casa sem um guarda-chuva à tira colo, nem que lá fora esteja um sol de torrar os miolos. É daqueles que jamais sairá de carro se não tiver um pneu como estepe no porta-malas. Ainda que os jovens lhe aborrecessem, Seu Carlo sempre, ou quase sempre, se deu bem na vida dessa maneira, assim meio pé-atrás. Ou todo.

A fama que Seu Carlo acumulou em liderar operários se espalhou por sólo italiano. Seu sucesso maior havia sido em Parma, em uma pequena empresa de laticínios. Tempos depois, ganhou um honrado posto diretivo em Milão, onde anteriormente, ainda jovem, havia sido um operário dos mais dedicados. O sucesso milanista provocaria amargor na boca daqueles que durante muito tempo se dedicaram a criticar os métodos fiéis de Seu Carlo.

Quando chegou a Milão, logo o novo chefe tratou de selecionar funções para os membros mais destacados de seu proletariado. Andrea, elegante e inteligente, foi escalado para assistente. Paolo e Alessandro, sujeitos de experiência e total confiança, designados gerentes. Ricardo, brasileiro, o operário mais eficiente da turma, recebeu como função comandar toda a produção, amparado por Clarence, tido como um funcionário versátil. Nelson, negro, alto, e de seriedade inabalável, era o responsável pelo sistema de segurança.

Mesmo com uma turma honesta e competente, Seu Carlo jamais poderia abrir mão de uma segurança ainda maior. Por isso solicitou a aquisição de um cão-de-guarda capaz de cativar os funcionários e proteger todos os arredores da empresa. Recebeu Gennaro, um pitbull de pedigree aprovado por escoceses, o que convenhamos é um pedigree e tanto. Mesmo que em sólo italiano.

Gennaro se tornou indispensável. Em muitas oportunidades, visitantes indesejáveis ameaçaram a eficiência do serviço de Nelson. Em várias delas, Gennaro, leal ao chefe, foi acionado. Dessa forma, Seu Carlo só faz a empresa crescer. Nos últimos anos, a sintonia com o quadro de trabalhadores é visível. E os resultados não param de progredir. Lealdade parece a palavra. Seja nos métodos de seu Carlo, na capacidade que Gennaro tem em proteger Nelson, sujeito competente. E também no serviço de Ricardo, hoje tido com justiça como o mais eficiente funcionário da empresa Milan.

quarta-feira, 2 de maio de 2007

Showtime


Admiro quem tem, aparentemente do nada, grandes idéias e com isso acaba lucrando. Juntar os dois maiores tenistas da atualidade - Federer na minha opinião, o maior de todos os tempos - foi uma sacada e tanto. Para o "tira-teima", os dois mestres jogaram em uma quadra mista projetada em Mallorca. E pararam o mundo do esporte por aproximadamente três horas.

De um lado, a grama, habitat natural de Roger Federer. Do outro, saibro, terreno onde Rafael Nadal é supremo. Comentando, um mestre em precisão e perfeição: Dácio Campos. E no fim, a certeza de que se no tênis tivesse empate, hoje não teríamos tido um vencedor.

Mascherano



Mascherano em: "Tradição"

Justificar vitórias com pesos de camisas não costuma ser, na opinião deste que vos escreve, um argumento primariamente válido, ainda que seja, claro, importantíssimo. O trabalho de marcação realizado pelo Liverpool nesta terça diante do Chelsea, foi o ponto primordial em um confronto onde a superioridade dos Reds, seja fisicamente, taticamente e até mesmo em termos de confiança, foi marcante.O belíssimo desempenho do Liverpool encontrou em Javier Mascherano, de pouco tempo de clube, uma peça fundamental. Atuando como praticamente único volante de ofício, o argentino impressionou pelo posicionamento, desarme e cobertura acima da média. Média que ele, aliás, mostrara durante a Copa do Mundo e os tempos de River Plate, mas não conseguiu repetir por Corinthians e principalmente West Ham.

A impressão que Mascherano passa dentro de campo é a de um veterano. Mas só tem 22 anos. Masc, como dizem os argentinos, conhece os atalhos do campo e tem uma visão periférica defensiva incomum. Além disso, parece completamente ambientado em Anfield Road onde, rapidamente, desbancou Xabi Alonso e Sissoko para se tornar a opção prioritária na função de primeiro volante.

Mascherano e Liverpool já estão em Atenas. A lição que a equipe inglesa deixa é de que futebol vai além de cifras astronômicas, embora contar com grandes jogadores é sempre positivo. Rafa Benítez conseguiu, com bem menos dinheiro, contratar peças que se encaixem e que resultem especialmente em um elenco homogêneo, fatores que pecaram no planejamento de Mourinho para a atual temporada. Mas que a camisa vermelha pesa, ah, isso pesa.

terça-feira, 1 de maio de 2007

Os nocivos


Costuma se dizer que há pessoas que fazem bem ao futebol. Foi Dadá Maravilha, tão cativante quanto eficiente em suas paradas no ar. É, por exemplo, o palmeirense Marcos, tão sincero e espontâneo quanto maravilhoso embaixo das traves. São raros os momentos em que a imprensa, especialmente para não criar maus-estares e por não ter embasamento qualquer, aponta os jogadores nocivos ao futebol. Neste último fim de semana, dois deles, Léo Lima e Fábio Costa, protagonizaram cenas esquecíveis.

- LÉO LIMA –

É bem possível que os “tapinhas nas costas” que Léo Lima recebia enquanto promessa do Madureira não tenham feito bem para uma carreira que prometia. Primeiro pelo Vasco, depois em Portugal, no Santos, no Grêmio e agora no Flamengo, Léo coleciona (poucas) atuações entusiasmantes ao mesmo tempo em que sua humildade zero cria inimizades. Na Gávea, sabe se lá porque conseguiu uma chance na finalíssima do Estadual. Fez uma bela jogada resultada em gol. Depois? Foi expulso por arranjar confusão.

No FC Porto, marcou negativamente uma época tenebrosa com Carlos Alberto e Cláudio Pitbull. Saiu chutado. Em Santos, não fez com que Luxemburgo mostrasse empenho para mantê-lo, o que é intrigante se analisarmos a ótima visão de futebol que tem o treinador santista. No Grêmio, o meia mais uma vez jogou um pedaço de sua carreira no lixo ao ser acusado de mau-profissional por Mano Menezes.

- FÁBIO COSTA -

Fábio Costa, goleiro do Santos, quase tirou a vida de Marcelinho, atacante do magistral São Caetano. Em um lance onde o goleiro atesta um de seus defeitos, a dificuldade em usar os pés, as chances santistas foram bastante abaladas no Paulistão. Em entrevista após o apito final, o camisa 1 teve cara de pau para afirmar que só teria tocado a bola. O personagem que comemora defesas como se fossem gols, e adora pontes espalhafatosas à discrição, não teve humildade para reconhecer um erro bizarro.

Fábio, que em 2003 selou a derrota santista na final contra o Boca Juniors na Taça Libertadores. O mesmo Fábio que contra o Fluminense na Vila Belmiro, em 2006, brigou e ameaçou torcedores. Também o mesmo Fábio que não teve humildade para sentar no banco de reservas enquanto Daniel Passarela esteve no Corinthians.

Fábio, personagem como Eurico Miranda, Emerson Leão, Antônio Lopes, Élson (ex-Cruzeiro), Piá (ex-Ponte Preta), Roger (Corinthians) e Carlos Alberto (Fluminense). Gente de um futebol onde cada dia o que só importa é vencer. Só não importa como.

Galo x Cruzeiro, por Braitner Moreira

Abro espaço para um texto delicioso feito pelo amigo Braitner Moreira, futura figura, quem sabe, no jornalismo esportivo. Talento ele tem!

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"Atlético Mineiro 4 x 0 Cruzeiro"

Na Roma Antiga, era comum o encontro entre gladiadores. Nos anos que precederam o nascimento de Cristo, eram esses desafios os principais espetáculos para a população local. Em 207 a.C., doze grandes retiários de uma rica região mineiradora uniram-se na organização de um torneio decisivo para as pretensões de cada um daqueles que se dizia o melhor gladiador da região. E como era de praxe nesse tipo de competição, não era necessário fazer bonito: bastava fazer bem, e, regra de via, destruir o rival.

Após seguidos combates, a luta final colocava frente a frente os renomados gladiadores de Pulchri Horizontis. Uma semana de muito disse-me-disse criava uma enorme expectativa na população. Na apinhada arena local, o público lutava para conseguir uma melhor colocação para acompanhar o duelo. Nos primeiros equilibrados minutos de luta, os dois adversários apenas se estudaram. Galus, após um momento de hesitação, conseguiu um pequeno arranhão em Raposus ao se recuperar de um golpe em falso. Depois de horas de combate, os dois estavam exaustos e ninguém havia sido seriamente atingido. Chegaram à conclusão que um descanso seria providencial.

Alguns minutos depois, os dois retornaram. Raposus, ainda desatento, sofreu o primeiro golpe de real efeito de Galus. Atordoado, Raposus parecia perdido. E adiantou-se demais numa tentativa de ataque, deixando a retaguarda aberta e abrindo espaço para ser novamente atingido. Os ataques inócuos de Raposus pareciam apenas fortalecer o rival, que conseguiu desarmá-lo com facilidade para desferir um terceiro e mais letal golpe, enquanto Raposus abaixava para buscar sua espada.

Galus mantinha-se concentrado, sabia que não poderia colocar tudo a perder. E Raposus, hipnotizado, deu as costas para seu oponente. Até que um quarto golpe sepultou suas chances de vitória. Galus estava exultante. A torcida estava alvoroçada. Bigodus, proprietário de Galus, fazia chacota com Perrellus, proprietário de Raposus. O qual, aliás, não se levantava. O que era apenas um detalhe físico para algo que já acontecia psicologicamente desde o início do torneio.