quarta-feira, 7 de julho de 2010

A obsessão dos espanhóis*


Correr com a bola cansa menos do que correr atrás dela. É mais ou menos com base nesse princípio que a Espanha criou um sistema de jogo cada vez mais nítido e sólido quando seus jogadores entram em campo: trocar muitos e muitos passes até cansar o adversário e abrir espaços em sua defesa. Uma tática que será colocada em prova pela Alemanha, nesta quarta-feira, em Durban, pela semifinal da Copa do Mundo de 2010.

Entre os jogadores que disputaram ao menos três partidas, Xavi Hernández é o líder de passes na Copa, com média de 80 por jogo. A seu lado, entre os dez principais passadores, estão outros quatro espanhóis: Busquets, Sergio Ramos, Piqué e Xabi Alonso, o segundo no geral com 60 passes por jogo.

Por consequência, a Espanha lidera de forma absurda o ranking de passes da Copa. Em média, o time de Xavi e Iniesta toca a bola de pé em pé 540 vezes por jogo do Mundial. O segundo colocado é a Argentina, com 77 passes a menos que os espanhóis.

A origem do estilo

Foi especialmente com Luis Aragonés, que assumiu a Espanha após o fiasco na Euro 2004, que se deu corpo a esse estilo de jogo. Naturalmente, atuar com a posse de bola é facilitado pelas presenças de Xavi Hernández e Andrés Iniesta, especialistas em toques curtos para cansar o adversário.

O Barcelona, primeiro com Frank Rijkaard e depois com Pep Guardiola, é a grande inspiração para esse plano de jogo. Mesmo em momentos agudos, como a semifinal da última Liga dos Campeões da Europa contra a Inter de Milão, o raciocínio segue o mesmo. Precisando de dois gols de vantagem, o time não se desesperou e perdeu a vaga na final fiel ao seu estilo.

Aragonés importou essa característica, facilitada pelo fato de a seleção espanhola ter muitos jogadores técnicos, especialmente no meio-campo. Na Copa de 2006, primeiro grande torneio sob o comando do técnico, a Espanha terminou seus quatro jogos com mais posse de bola que o adversário.

A queda nas oitavas diante da França de Zinedine Zidane não alterou o que se planejava. Naquele dia, os espanhóis dominaram o rival, com índice de 62% contra 38%. Caíram prematuramente graças ao brilho do capitão francês que decidiu a partida em lances individuais. A glória viria dois anos depois.

Índices cada vez maiores

Aragonés permaneceu no cargo e foi coroado com o título europeu em 2008. Naquele torneio, a Espanha aprofundou sua característica de jogar com mais posse de bola. Em apenas dois dos seis jogos da conquista os espanhóis jogaram com índice menor que o rival.

Diante da Rússia, na estreia: afinal, o treinador do rival era Guus Hiddink, holandês mundialmente reconhecido como um dos mais competentes em jogar com a posse de bola. No reencontro com os russos, já na semifinal, a Espanha retomou a soberania e deu um banho.

A segunda ocasião foi na final contra a Alemanha. O único gol do jogo, marcado por Fernando Torres, surgiu aos 33min. Daí em diante a Espanha abdicou de seu estilo e deu campo aos alemães, que ficaram com o vice.

Na Copa do Mundo, já com Vicente del Bosque no comando técnico, tem sido ainda mais gritante a qualidade dos espanhóis em jogar com a posse de bola. Em todas as cinco partidas, a Espanha teve mais que 60% de índice. Diante do Paraguai, trocou quase o triplo de passes em relação ao rival.

Confira o índice de posse de bola da Espanha nas últimas três grandes competições:

COPA DO MUNDO 2010

Espanha 1 x 0 Paraguai
Posse de bola: 67% a 33%
Passes: 575 a 206

Espanha 1 x 0 Portugal
Posse de bola: 63% a 37%
Passes: 591 a 298

Espanha 2 x 1 Chile
Posse de bola: 63% a 37%
Passes: 571 a 236

Espanha 2 x 0 Honduras
Posse de bola: 61% a 39%
Passes: 436 a 255

Espanha 0 x 1 Suíça
Posse de bola: 72% a 28%
Passes: 539 a 196

EUROCOPA 2008

Espanha 4 x 1 Rússia
Posse de bola: 46% a 54%

Espanha 2 x 1 Suécia
Posse de bola: 63% a 37%

Espanha 2 x 1 Grécia
Posse de bola: 57% a 43%

Espanha 0 x 0 Itália (4 a 2 nos pênaltis)
Posse de bola: 57% a 43%

Espanha 3 x 0 Rússia
Posse de bola: 52% a 48%

Espanha 1 x 0 Alemanha
Posse de bola: 48% a 52%

COPA DO MUNDO 2006

Espanha 3 x 1 Tunínia
Posse de bola: 65% a 35%

Espanha 1 x 0 Arábia Saudita
Posse de bola: 58% a 42%

Espanha 4 x 0 Ucrânia
Posse de bola: 54% a 46%

Espanha 1 x 3 França
Posse de bola: 62% a 38%

* Publicada no Terra

terça-feira, 6 de julho de 2010

Sem se importar com o trabalho sujo


Edinson Cavani pintou para os uruguaios em 2007 como a esperança de um grande craque. Capitão, foi o artilheiro do Sul-Americano Sub-20 com sete gols, à frente até de Alexandre Pato. Era aquele centroavante técnico e com presença de área, algo muito diferente do Cavani que participa da melhor campanha da Celeste Olímpica em 40 anos de Copas. Um jogador que não se importa em realizar o trabalho sujo.

Reserva na estreia contra a França, Cavani entrou no time para permitir que Diego Forlán brilhasse. Segundo atacante, é sempre ele quem retorna na marcação ao lateral esquerdo adversário. Diego, o craque, joga sem obrigações defensivas, mas Cavani é o abnegado que corre de uma linha de fundo à outra.

Se computados os quatro últimos jogos, quando ele esteve em campo, nenhum outro jogador uruguaio correu tanto. Jogando sempre no choque, já sofreu nove faltas no Mundial - Forlán só uma. O esforço físico é uma característica que Cavani acrescentou a seu jogo desde que chegou no Palermo. Lá, é que ele quem ajuda na recomposição defensiva enquanto Miccoli fica fixo na frente.

No futebol de hoje, em que até atacantes são escolhidos pela capacidade de ajudar na marcação, o camisa 7 da Celeste é importantíssimo. Mais que qualquer coisa, Cavani é um jogador talentoso que não se importou em ser coadjuvante e atuar coletivamente.

O baile holandês*


Até 1974, a Holanda estava muito longe do radar das grandes seleções. Seus últimos (e únicos) Mundiais haviam sido em 34 e 38, quando havia sido eliminada nas estreias com derrotas. A volta a uma Copa do Mundo, quase quatro décadas depois, não se anunciava simples, já que o rival era o tradicional Uruguai. Não se esperava que o confronto, reeditado nesta terça-feira na Cidade do Cabo, entrasse para a história. Mas foi exatamente o que aconteceu.

A lendária e revolucionária Laranja Mecânica escreveu seu primeiro capítulo justamente contra os uruguaios, semifinalistas da Copa do Mundo anterior. A vitória por 2 a 0 foi mínima perto do massacre técnico, tático e físico dos holandeses. Era o nascimento de um grande esquadrão, mas Johan Cruyff temia o duelo, confessou anos depois.

O arrastão holandês

"Estávamos muito nervosos. Além de nunca termos atuado juntos, cinco jogadores estrevam em novas funções. O próprio Nesskens teve de se sacrificar e fazer várias funções. Eu não estava 100% fisicamente. E tudo isso junto, num só jogo, o da estreia, com uma seleção bicampeã mundial, quarta colocada na Copa anterior...", afirmou Cruyff no livro Futebol Total, escrito por ele próprio.

Bastou a bola rolar para as ideias ficarem claras. A Holanda tinha a base do Ajax, então tricampeão da Liga dos Campeões da Europa, e as novas peças se encaixaram milimetricamente. Ao contário do que se imagina, aquele time holandês sincronizado e imprevísivel não foi montado por anos e anos. Foi um fenômeno da natureza.

Não foi suficiente aos uruguaios ter um time experiente, com jogadores como o goleiro Mazurkiewicz, o lateral Pablo Forlán, o volante Montero Castillo e o meia Pedro Rocha. A base semifinalista da Copa de 70 já era ultrapassada e foi atropelada pela Laranja Mecânica.

Segundo o livro As maiores seleções estrangeiras de todos os tempos, do jornalista Mauro Beting, foram 17 chances de gol da Holanda contra uma do Uruguai. Além dos dois gols, um pênalti não marcado, um gol anulado equivocadamente e muitas, muitas defesas do goleiro Mazurkiewicz. Pedro Rocha recorda o massacre:

"Nosso treinador (Roberto Porta) pediu atenção especial para o 14. Montero Castillo, nosso volante, disse para 'deixar com ele', que o Cruyff não iria andar. Pois é... No intervalo, perguntei ao Castillo porque não conseguira fazer o prometido. Ele me disse: 'mas como? Corri atrás do 14 o campo todo e ele não parou! Não dava nem para dar porrada nele". Castillo conseguiu ao menos o segundo objetivo: de tanto bater, foi expulso aos 22min da etapa final.

Futebol total

Coletivamente, como se tornaria a marca de todos os grandes times do país, a Holanda construiu seus dois gols. O primeiro, já com 6min, com o lateral Suurbier fazendo jogada de ponta, pela direita, e cruzando na cabeça de Rep, que finalizou da posição de centroavante. Não à toa se dizia que o time rodava como um carrossel...

Cruyff ainda marcou um gol, inexplicavelmente anulado pelo árbitro húngaro Karoly Palotai, que entraria para a história do futebol. Até um "ohhhh" do estádio a Holanda arrancou, em seguida, por conta de um impedimento. Aos 46min, o cerebral Van Hanegen lançou Rep, que rolou para Rensenbrink confirmar a vitória e encerrar a história.

Além de inaugurar a linha de impedimento, a Holanda apresentou ao mundo a tática que se notabilizaria como arrastão. Subitamente, vários holandeses (oito, nove ou até dez) se moviam na direção de um adversário na saída de bola.

Essa era uma de tantas marcas daquele time que não precisou de taças para escrever seu nome na história. E começou tudo isso contra o mesmo Uruguai desta terça-feira.

Ficha do jogo

Local: Niedersachsenstadion, em Hannover
Data: 15 de junho de 1974
Árbitro: Karoly Palotai (Hungria)

Uruguai
Makurkiewicz; Forlán, Jauregui, Montero e Pavoni; Mantegazza, Esparrago e Pedro Rocha; Cubilla (Milar), Morena e Masnik
Treinador: Roberto Porta

Holanda
Jongloed; Suurbier, Haan, Rijsbergen e Krol; Jansen, Neeskens e Van Hanegen; Cruyff, Rensenbrink e Rep
Treinador: Rinus Michels

Cartões:
Amarelos: Mantegazza, Forlán e Masnik
Vermelho: Montero Castillo

Gols: Rep, aos 16min do 1º tempo, e Rensenbrink, aos 46min do 2º tempo

* Publicado no Terra

domingo, 4 de julho de 2010

A Copa do Mundo não permite experiências


Os fracassos dentro de campo das equipes de Dunga e especialmente Maradona ficaram marcados na fase de quartas de final da Copa do Mundo. O banho coletivo e tático da Alemanha sobre a Argentina expôs uma diferença gritante no conjunto das duas equipes: alemães marcavam à frente, atacavam e defendiam com quase todos os jogadores e chegavam na área para finalizar sempre em triangulações e jogadas combinadas. Os argentinos, como bem observou Joachim Löw, eram um time dividido: cinco para defender, cinco para atacar. Um rascunho de time. Não dá para crucificar Messi.

É ingênuo demais imaginar que uma atuação tão superior de um time sobre outro, com jogadores tecnicamente equivalentes, não tenha interferência de um treinador, para o bem ou para o mal. Maradona, como Dunga, soube caminhar bem na administração do grupo fora de campo, criou um ambiente favorável entre os jogadores e trouxe o povo para o lado da seleção. Transformar grandes jogadores em um grande time não é tão simples quanto isso. Isso, nem El Pibe e nem seus auxiliares conseguiram.

Outro exemplo importante onde se nota a interferência de um treinador está entre os ganenses. Não deve ser por acaso que todas as melhores campanhas africanas na história das Copas (Marrocos-86, Camarões-90, Senegal-02 e Gana-10) tinham um técnico estrageiro à frente. O sérvio Milovan Rajevac fez os Estrelas Negras atuarem de uma forma coletivamente muito sólida, com variações importantes e preservando algumas características próprias daquele continente. Gana foi superior ao Uruguai e só não chegou à semifinal por essas maravilhas que nos fazem ser apaixonados pelo futebol.

O próprio crescimento de paraguaios e uruguaios nos últimos anos é fruto de trabalhos dedicados. As duas seleções têm poucos diferenciais técnicos, especialmente os rojiblancos, mas seus jogadores, unidos, jamais vendem barato uma derrota. O Uruguai segue na Copa graças à organização que tem em campo, à leitura de jogo quase sempre muito correta e a uma estrela inegável. Mesmo quando esteve contra as cordas, a Celeste mostrou sua grandeza. Um time só não pode é ficar refém de sua camisa, como fez a Argentina ao entregar seus talentos a Maradona.

Por fim, um trabalho acima de qualquer treinador é o da Espanha. Das mais jovens seleções de base ao time adulto, passando pela concepção de jogo de vários clubes do país, há uma mentalidade muito clara. As participações de Luis Aragonés e Vicente del Bosque, não exatamente grandes estrategistas, se resumem muito mais à escolha dos jogadores e ao posicionamento deles em campo. O que torna ainda mais encantador o futebol jogado sob o ritmo de Xavi e Iniesta.

ESPANHA (4-2-3-1) x PARAGUAI (4-4-2)
Melhor em campo: Iniesta
Melhor do Paraguai: Villar
O leão: David Villa
O preguiça: Cardozo
A imagem do jogo: A bola batendo três vezes na trave antes do gol espanhol

ALEMANHA (4-2-3-1) x ARGENTINA (4-1-3-2)
Melhor em campo: Schweinsteiger
Melhor da Argentina: Di María
O leão: Lahm
O preguiça: Heinze
A imagem do jogo: Maradona, conformado e desolado, dando adeus à Copa

URUGUAI (4-4-2) x GANA (4-2-3-1)
Melhor em campo: Forlán
Melhor de Gana: Kevin-Prince Boateng
O leão: Cavani
O preguiça: Asamoah Gyan
A imagem do jogo: Luis Suárez, do inferno ao céu, após o pênalti perdido por Asamoah Gyan

O problema da vez no Brasil: dar às costas para suas próprias raízes

Eliminações do Brasil em Copas sempre geram desdobramentos nos anos seguintes. Foi assim desde a década de 50, quando se criou a ideia de que o problema da seleção era falta de organização e fragilidade mental. O fim do complexo de vira latas, em 1958, transformou Paulo Machado de Carvalho em um personagem fundamental na história de nosso futebol. Daí, perdemos jogando bonito em 78, 82 e 86. Não à toa, a seleção de Lazaroni ficou marcada como uma das mais feias a vestir o verde-amarelo em Mundiais.

O senso comum depois da virada imposta pelos homens de laranja, em Port Elizabeth, é de que a seleção de Dunga deu as costas para a essência do futebol brasileiro, o que indica a avaliação que provavelmente se fará pelos próximos meses. Depois dos gols de Sneijder, foi de dar dó a falta de recursos que o time de Dunga mostrou em campo. Felipe Melo, o homem do passe mais qualificado, fez o que fez. Kaká, sempre dependente da velocidade, se encostou na ponta esquerda e desapareceu. Robinho, apático, deu ainda mais argumentos a seus críticos.

A falta de toque de bola que revoltou brasileiros e até europeus tende a ser substituído por um novo estilo daquela que se imagina ser a equipe de 2014. Afinal, entre os mais promissores estão virtuosos como Hernanes, Giuliano, Ganso e Neymar. Só não se pode é dar as costas para pontos positivos no trabalho feito entre o Mundial da Alemanha e o da África do Sul.

O senso de unidade que Dunga deu ao elenco foi algo particularmente muito positivo em relação a 2006, quando os objetivos pessoais invariavelmente estavam à frente do conjunto. O grande pecado do treinador da seleção é ter colocado fatores extracampo à frente de critérios técnicos, o que deixou Ronaldinho Gaúcho fora da lista final e não permitiu uma aposta em Neymar ou Ganso. Seriam eles os jogadores para uma mudança de estilo dentro das partidas, mas o que se absorveu da queda diante da França foi além do necessário.

Aprender com derrotas e manter o que dava certo é justamente a maior explicação para o sucesso holandês neste Mundial. O time da última Eurocopa fez apresentações históricas contra italianos e franceses, justamente os finalistas da Copa 2006, mas se permitiu erros defensivos que deram à Rússia uma vitória no mata-mata. Bert Van Marwijk não cortou o talento, mas trouxe muito mais segurança à Orange. Não foi só em campo que a Holanda deu uma lição aos brasileiros.

HOLANDA (4-2-3-1) x BRASIL (4-2-3-1)
Melhor em campo: Sneijder
Melhor do Brasil: Juan
O leão: De Jong
O preguiça: Robinho
A imagem do jogo: Pisão de Felipe Melo em Robben simbolizando o fim da segunda Era Dunga

Chocolates para Müller*

Infelizmente, não foi possível postar o texto antes do duelo entre Alemanha e Argentina, como era a intenção do blog. Já que Thomas Müller segue no Mundial, vale o registro.


Não foi só por causa dos 14 gols marcados em Copas do Mundo que aquele senhor grisalho, de barba rala e óculos, foi cercado por todos os repórteres. Entre as perguntas, Thomas Müller foi um nome costumeiramente repetido. Atencioso, ele não perdeu a paciência para falar do jogador mais jovem desde Pelé a fazer dois gols em um mata-mata de Mundial.

"Thomas já é o melhor homem gol da Alemanha sem ser um atacante puro. Sabe fazer tudo bem e o que mais destaco é que joga igual um amistoso simples ou um jogo de seleção. Já havia dito que ele é um campeão e, de tão tranquilo, jogou como se fosse uma partida da segunda divisão. É um craque, tem um futuro incrível pela frente e a Alemanha tem um atacante para muitos anos".

Naquele momento, poucos dias depois de seu pupilo arrebentar com a Inglaterra, o velho Gerd se sentia realizado. A aposta pessoal no garoto esguio e a quem muitos pediam vibração tinha sido mais uma conquista dele. Os tantos chocolates utilizados para cativar Thomas eram baratos perto daquela satisfação.

Gols e chocolates

Hoje uma das grandes sensações do Mundial, Thomas foi treinado pelo velho Gerd Müller, maior goleador da história da seleção alemã, nas categorias de base do Bayern de Munique. Apesar do sobrenome em comum, não há qualquer ligação familiar entre os dois. Mas, indiscutivelmente, uma grande sintonia.
Thomas Müller chegou ao Bayern de Munique com 10 anos de idade, mas jamais foi tratado como aquele tipo de jogador especial. O crescimento só se deu quando encontrou Gerd nos juniores do clube. Para incentivar o pupilo, um mimo em especial: gols e grandes atuações eram premiados com chocolates.

O menino Thomas cresceu e, em 2009, ganhou de Jürgen Klinsmann, então treinador do time profissional do Bayern, a primeira chance no time de cima. Dois dos grandes atacantes da história do futebol alemão apostavam nele, que não decepcionou.

Em seu primeiro jogo de Liga dos Campeões, Thomas Müller saiu do banco e marcou. Não foi o suficiente para lhe dar sequência e Klinsmann optou pelos jogadores mais experientes que tinha à disposição. Thomas retornou para o time B, mas Gerd ainda apostava nele.

Conselhos para Van Gaal

Reconhecidamente um farejador de talentos, Louis van Gaal foi rapidamente alertado por Gerd Müller quando chegou ao Bayern no último ano. O conselho era para que o novo treinador apostasse no garoto, então já atuando na terceira divisão com os suplentes. Paul Breitner, outra legenda do futebol alemão e membro do clube bávaro, foi outro a soprar o nome de Thomas nos ouvidos do holandês.

Os 19 gols marcados por Thomas Müller indicam que Van Gaal, o homem que lançou Xavi e Iniesta no Barcelona, soube escutar os conselhos, especialmente de Gerd. Em março último, Joachim Löw inovou e, em amistoso contra a Argentina, colocou o garoto em campo, como titular da seleção, pela primeira vez. Algo que Dunga se negou a fazer com Neymar e Paulo Henrique Ganso.

Thomas foi discreto naquele dia, mas a grande reta final de temporada com o Bayern fez com que Löw persistisse. E quando a Alemanha estreou no Mundial, lá estava o menino de Gerd, com a camisa 13 nas costas. A mesma camisa de Michael Ballack. Sim, também a mesma camisa da legenda Gerd Müller na Copa de 1974.

Grande Copa

Titularíssimo desde a primeira partida alemã no Mundial, Thomas Müller já é favorito destacado ao prêmio de melhor jogador jovem da Fifa. Marcou três vezes, duas diante da Inglaterra. Deu três assistências, número atingido apenas por Kaká, já eliminado. Exibe, pela faixa direita do ataque germânico, um futebol vertical e até aqui imparável. Para a alegria do velho Gerd.

* Originalmente publicado no Terra

quinta-feira, 1 de julho de 2010

A lição da Copa: futebol evoluindo e em constante mutação



Quem, em sã consciência, diria que brasileiros enfrentariam norte-coreanos e demorariam 55 minutos para marcar um gol? Ou que uma desacreditada Nova Zelândia jogaria três vezes em um grupo acirrado e não perderia nenhum jogo? Quem apostaria que uma seleção se defenderia tão bem ao ponto de não sofrer gols em mais de 9 horas jogando na Copa? Foi a Suíça, primeira equipe a impedir a Espanha de marcar após 12 partidas consecutivas.

Se há uma lição clara sobre o Mundial jogado na África do Sul, é de que o futebol se desenvolveu tanto, e os conceitos se difundiram por tantos países, que vencer fácil em torneios de alto nível é quase um mito. Na Copa de 2010, cabe lembrar, 12 dos 32 treinadores são estrangeiros. Um recorde absoluto na competição. No mundo cada vez mais global do esporte, há poucos segredos. Nada surpreende ninguém.

Com muitas comissões estrangeiras, se aprimoram a parte física e fisiológica, se absorvem novas ideias técnicas e táticas e, muitas vezes, se cria uma linha de trabalho que vai das categorias de base ao time profissional. Basta ver a Austrália e a invasão de holandeses desde Guss Hiddink. É a unificação dos conceitos.

É essa a Copa em que, dentro de um universo de 56 partidas, só há quatro gols de falta e duas vitórias de virada. Da primeira rodada com média de gols mais baixa da história. De apenas 13 gols em 123 marcados em jogadas individuais. O Mundial que precisa de ao menos 19 gols nos últimos oito jogos, sob o risco de virar o dono do índice mais baixo em todos os tempos.

Mas como dizer que a Copa é ruim? Impossível argumentar contra os passes preciosos de Sneijder e a magia de Robben. Difícil não se solidarizar à busca de Lionel Messi, de grandes atuações, pelo primeiro gol no Mundial. Como não se impressionar com o futebol coletivo e vistoso dos repaginados alemães? Também não dá para não reconhecer como o time de Dunga é prático e executa perfeitamente, com uma beleza própria, aquilo que propõe. Ou que a Espanha tem uma identidade moderna, bonita e imutável.



Mais atual e globalizado que uma Copa na África, só o futebol jogado nela. Boa parte dos times atua da mesma forma: quatro defensores e esquemas que variam sempre entre 4-3-3, 4-1-4-1, 4-4-2 e 4-2-3-1. O que, na prática, é quase a mesma coisa, com uma peça mais para lá ou uma peça mais para cá.

Nesse novo futebol, há duas escolhas: ficar reclamando e pedindo a volta do tempo em que o Brasil, livre e solto, ficava tocando bola pelo campo todo até Carlos Alberto Torres aparecer, livre e solto, para fazer o gol. Ou se adaptar e ver que, ainda bem, o talento ainda sobressai.

Afinal, restaram cinco seleções de altíssimo nível entre as finalistas. Só temos mais oito jogos. Vamos aproveitá-los.